Por que eu desisti dos concursos públicos

Esse post aborda uma opinião extremamente pessoal. Não serve para ditar sobre a melhor ou pior decisão.

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Entrei na faculdade em 2009, e desde aquela época já ouvia dos meus pais que a grande saída no mercado de trabalho eram os concursos públicos. Emprego garantido para o resto da vida, tranquilidade, estabilidade, retorno financeiro bacana… E por muitos anos, acreditei nessa promessa. Não que eu tenha desacreditado, mas simplesmente, de uns tempos para cá, comecei a repensar sobre a decisão de investir em ser aprovada em algum concurso para minha área de formação (ou não né?!). Vou explicar os motivos.

Sou formada em Biblioteconomia há pouco mais de um ano. Uma parte considerável desses profissionais investem em concursos públicos, afinal, tem sempre vaga disponível e pouca gente se formando. Mas não se iluda: apesar de tudo, quando abre vaga para bibliotecário, abrem poucas. Logo, a concorrência aumenta. São várias “cabeças” lutando por 1, ou 2 vagas, na grande maioria dos casos. Claro, as vezes surgem aquelas oportunidades indispensáveis, como no caso da Biblioteca Nacional, que recentemente lançou edital para pouco mais de 30 vagas, e a UFRJ, com 8 vagas disponíveis. E claro, aquela esperança de continuarem chamando, enquanto a validação do concurso estiver prorrogando.

Eu perdi o encanto pelos concursos por vários motivos. O primeiro é a rotina de estudos. Não que seja um problema estudar, eu realmente amo aprender, mas gosto de fazê-lo no meu tempo, e com os assuntos que me interessam. Quem estuda pra prova de concurso sabe que decoreba praticamente reina. Tem lá e cá um assuntinho bacana, mas sempre tem algo para tatuar na pele. Pior ainda é realmente estudar aquilo que você não manja bem: leis, direito administrativo, noções de informártica, lógica (arrepio em pronunciar esta palavra rs), entre outras maluquisses.

Há pouco tempo atrás, eu fazia tudo quanto era concurso que aparecia, e estudava. Metia a cara nos livros e artigos, naquelas leis, nas coisas mais malucas. Refazia provas e mais provas. Mas como eu odiava estudar aquilo. Era péssima pra decorar. E aparecia cada questão absurda… Que me dá ódio mortal! Tem coisa mais dramática do que decorar regras de um código de catalogação? Decorar minúcias da ABNT? Saber o passo-a-passo do serviço de referência? Amigo, na vida real, você definitivamente não vai precisar saber nada disso de cabeça, afinal, códigos existem para serem consultados, regras de como fazer a pesquisa ideal para o seu usuário não existem, elas se adaptam para cada necessidade! Isso me deixa muito revoltada, e consequentemente, prejudica meu ritmo de estudos… Eu sempre me pegava perguntando: “porque eu tenho que saber e/ou decorar isso”? Eu gosto de coisas que me fazem pensar, refletir, questionar, e não simplesmente aceitar e pronto. Perdia tando tempo aceitando.

Outro aspecto é o financeiro. Como custa caro pagar para fazer essas provas! Entrar com recurso para ficar isento da taxa de inscrição também da trabalho, e nem sempre você consegue. Logo, deve se estar sempre preparado financeiramente para arcar com estes custos. Sem contar nos casos em que você precisa viajar até o local da prova. Eu sempre encarei isso como um investimento. Ser concurseiro é ser um investidor do seu futuro. Se você deseja muito trabalhar no setor público, tire o escorpião do bolso hoje, e amanhã será recompensado. Eu já gastei horrores, tive que tirar dinheiro da poupança várias vezes para pagar aquela super prova com uma taxa de inscrição cara. Já desisti de fazer alguns concursos por não ter dinheiro para pagar. Engraçado que, na minha área, quando abre vaga para uma empresa, surgem mil editais ao mesmo tempo! Sem contar quando duas provas caem no mesmo dia e horário, e você tem que decidir por uma delas. Já aconteceu comigo algo pior, eu paguei pelas duas e bem depois mudaram a data de uma delas, que coincidiu com a outra. Paguei e nao pude fazer uma das provas :/

Durante a prova, sempre bate um nervosismo, as mãos começam a suar, o sinal toca, você abre o caderno de questões, começa a ler, ler e ler, e não entendeu nada. Sua mente ainda está tentando focar no que deve ser feito, procurando amenizar a ansiedade. Quem nunca passou por isso? Tem gente que já está tão engessada com esse ritmo de concurso que não sente mais nada durante a prova, simplesmente pega e faz. Ah, que inveja! Eu sou dessas que demoram a pegar no tranco por nervosismo. O efeito passa, mas é uma baita sensação ruim. O pós-prova dá a impressão de que você perdeu um parente querido. Aquele vazio no peito, vontade de chorar, uma fome danada, você cai de boca naquele Big Mac do McDonald’s. Você compara as respostas com seus amigos, todo mundo marcou “b”, e você marcou “e”. No dia seguinte, sai o gabarito, e você fica frustrado. Mais uma vez os seus amigos vêm comparar a quantidade de acertos com você, e lá vem decepção. As vezes você pode ter tido um resultado excelente, e isso é ótimo! Mas nem sempre é bom o suficiente.

Sim, eu tenho experiências ruins para contar. E eu não desisti de investir em concursos por ter ido mal em algumas provas e decidi abandonar o barco das tentativas. Concurso é errar muito e acertar uma vez. É a esperança de que “uma hora vai”. Até lá, tem que ser persistente. Eu sei que sou uma pessoa persistente.

Eu desisti porque me peguei pensando sobre os concursos que eu tentei. Me inscrevi para tentar uma vaga na empresa “x”, mas eu quero realmente trabalhar com isso para o resto da minha vida? Vejo as atribuições do cargo nos editais, e na maioria dos casos eu já desisto ali mesmo. Quero experiências novas, atividades pouco engessadas, projetos inovadores, mudar de emprego se o atual não me fizer bem. Imagina que locura você se matar de estudar por anos, passar no concurso, e descobrir que aquilo que você faz é chato? Eu com certeza ia pirar. Aí lá vai você tentar de novo passar para outro lugar. (Exceto se você for daqueles caras excepcionais que passam em vários concursos e pode escolher pra onde quer ir!)

Claro que empresas privadas tem seu caos. Mas no momento, para mim, elas me atendem. Sinto-me livre para mudar, tentar outras oportunidades, explorar o mercado além da biblioteconomia tradicional. Isso sim me fez desistir dos concursos. Pelo menos por enquanto. Quando eu finalmente sentir que tenho experiência, vontade e maturidade para encarar tudo de novo, quem sabe eu não me arrisco?!

E você, o que tem a dizer sobre as suas experiências com concursos públicos? 😉

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